quinta-feira, 21 de maio de 2015

Musa insone


                                                                   


a manhã branca abre seus olhos

e eu insônia quero fechar os meus

quando o breu é tu obsessivo

viro-me na cama e espero te dormir

mas meus olhos fechados

teimam em enxergar teu corpo

observar teus movimentos

sentir teu gosto

absorver teu cheiro

arrasto-me sobre teu corpo branco

flutuando na água fresca de quedas brandas

sou a brisa envolvendo-te

penetrando em teus poros

oferecendo-te meu vício lascivo...

abro os meus olhos e vejo teu gozo

meu boto rosa em gemidos.

eu tua musa insone desabrocho.

tu, sonhos, gemidos, sono,

eu musa insone

quero te sonhar em sonhos.



Marisete Zanon   - In Book - Um Cordão de confissões - 2008

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Tanto tempo




tem dias que a curva é um precipício
e despenquei nele assim que comecei a escrever
queria dizer-te sobre o quanto te aprecio
de todas as formas e posições
confessar que és meu vício
mas falo com sinceridade...
mato meus vícios
antes que eles matem a mim
antes que matem a minha inspiração
queria falar que te amo
mas amor em mim é drama
um sentimento que cansa
e mata
vim pra dizer que és meu bálsamo
minha fraqueza
meu motivo de sorrir
e de fazer-te sorrir descontraidamente
e sentir leveza
quero pedir que tudo continue
do mesmo jeito de tantos anos
essa desculpa vadia
nesse tropeço do tal destino
que é paixão todo dia e
que tudo continue assim
exatamente assim
sempre

Marisete Zanon  - Todos os direitos reservados a autora

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Sob efeito de codeína sem pontuação

                                                    Fotografia - Marisete Zanon

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Amigos podem ir além dos que cabem na minha mão


                                                                   


Como eu queria que tudo fosse consideravelmente diferente, que as pessoas fossem diferentes da mesmice, que fossem sinceras, que fossem honestas e levassem em conta o sentimento dos outros, sem preconceitos e discriminações sociais, raciais, ou de gênero. Eu queria ser diferente e não levar as pessoas tão a sério, não me envolver dessa maneira tão intensa com as pessoas que até parece mania. Prefiro aquelas pessoas que vão chegando e de uma palavra dita abre o seu vocabulário e coloca pra fora suas ideias, sua vida e seus desejos. Sinto-me em casa com pessoas assim, sem frescuras, sem ter que desviar de ovos. Gosto de gente com sorriso franco, mesmo que não tenha dentes, mas que seja verdadeiro. Gente que tem a inocência no olhar. Gente que é gente. Gente que ouve e gente que fala a verdade, sem medo. Gente que prospera com os outros, que ajuda, mas o que somos é diferente de tudo isso. Mas o que vemos é diferente de tudo isso. É um passar de perna no outro, puxar o tapete do outro, mentir para o outro e invejar o outro. Iludi-me tanto, me machuquei tanto e machuquei tantos outros, que chegou uma hora que ficou difícil distinguir quem era bom ou mau... Então hoje eu escolho quem me escolhe de peito aberto, quem tem culhões e quem usa calcinha para serem meus amigos e decido quem fica. Não puxo o saco de mais ninguém. Assim que vai ser.

Marisete Zanon
Lê, escreve e faz artes

Todos os direitos reservados a autora.

sexta-feira, 27 de março de 2015

canção brega




já escalei montanhas sem êxito
fiquei perdida na escuridão
lutei com dragões e me queimei
vi anjos falharem ao meu lado
e o demônio rindo à minha frente
vi muitos olhos se fecharem
atravessei campos de espinhos
rastejei por lábios de pecado
abri mão do perdão
e o que é tudo isso
comparado a esquecer você?
implorei por minutos
suportei mentiras medíocres
só para ter você na minha cama
no meu mundo
mas nesse momento...
nesse momento amor
sacudi toda essa sujeira
pra bem longe de mim
onde o vento faz a bendita curva
e traz a cura de ti
vou encontrar o que preciso realmente
nada vai impedir o direito
que tenho de ser bem melhor
desse nada que tive
agora...bem, agora
vou voando buscar a felicidade
que não é nenhuma estrela
ou estorinha de conto de fada
é a vida vivida de outra maneira

Marisete Zanon  


segunda-feira, 23 de março de 2015

Tempo passarinho




tempo, tempo...
silencioso, ou todo alarde
tempo passarinho
voa como a águia
ou como o estorninho
pode ser um beija-flor
mesmo parado bate asas
o tempo fica para trás
e o agora tempo foi
no bater de asas do passarinho
tempo...
tempo que voa passarinho
devora passarinho
que o tempo voou...


Marisete Zanon  - In Confissionarium Book Livro II 

domingo, 15 de março de 2015

Poema tardio...




tem tempo pra tudo nessa vida
mas paixão a essa altura
não estava nos meus planos
mesmo seus olhos sendo verdes
e  seres alguém tão vistoso
e especial
                   [não perfeito
mas seria o meu número exato
não estava nos meus planos
alguém por favor,  me acorda
e acende a luz!
ou não acenda...
deixe-me continuar sonhando
com teu braço em volta de mim
e a mão segurando meu rosto
enquanto nos beijamos
beijos de línguas sedentas
tão demorados que salivam...
dentro do sonho eu sonho
acordar todas as manhãs nos teus braços
sorrir-te e servir-te um banquete
coxas, nádegas, vulva e seios
minha boca é o teu guardanapo amor
servir-te-ei orgasmos com luxúria
e entre rios e vertentes
beberemos cálices de prazer
abrirei as janelas do quarto
para que o sol nos sorria
e sua luz ilumine nosso leito
brincaremos feito crianças
trocaremos sorrisos de felicidade
e  adormeceremos outra vez
para que eu possa acordar
e descobrir que amo sozinha...


Marisete Zanon    - Todos os direitos reservados a autora

quinta-feira, 12 de março de 2015

Odeio o trivial




Sempre procurando alguém...
Nenhum estereotipo
Quero um paradoxo!
Algum pragmático.
Nada de convencionalismo.
Eu odeio! O trivial, o standard.
Alguém que me entenda,
Sem racionalismo.
Uma performance...
Uma prova que a vida é arte!
Alguém que encoste sua alma na minha
Alguém que chore...
Alguém que saiba enxergar
E me enxergar!
Alguém que me cubra...
E alguém que me encontre e descubra.
Que fale a minha língua...
E a devore!


Marisete Zanon – In Um olhar de confissões – Book I

segunda-feira, 9 de março de 2015

Prazeres e Jazz




Como naquele pequeno poema onde atravesso a rua na decisão de partir
e na calçada do outro lado já não sou mais nada. Nem eu, nem tu.
Nunca pensei que pudesse ser assim tão rápido, tão fulminante.
Você fuma um cigarro atrás do outro, perde-se na fumaça esvoaçante e esvazia a garrafa rápido demais. Teimo em permitir-me imaginar para onde viajam teus olhos azuis nesses instantes que parecem infinitos.
Teu coração dispara, mas não é por mim e sim pelo álcool que está a matar-te.
Não sei onde está a poesia nisso, mas mesmo assim eu escrevo. A poesia é meu registro de nascimento e também será o de óbito.
Ah... Essa noite que parece não acabar mais. Estou bem aqui na tua frente, mas o jazz e o álcool te absorvem.
As prostitutas são mais felizes que eu, barganham seus prazeres e ainda levam vantagens. O bordel do outro lado da rua parece elegante e aconchegante, mais que os teus braços. Lá elas se divertem e o que me sobra é um peso mórbido encharcado de álcool perdido em sua própria ignomínia.
O jazz toca no palco com sabor de despedida. Os bares já estão encerrando o expediente, bebo uma dose e levanto-me da mesa, olho por alguns segundos teus olhos azuis, penso nas prostitutas e em seus prazeres que se estendem até onde decidirem seus clientes e elas próprias.
Não vou dar-te outra chance olhos azuis. Vou-me embora, olhos azuis. Vou sim, ali para o bordel perder-me na luxúria e ser feliz com o jazz observando os meus prazeres e eu envolvida nos dele.


Marisete Zanon

sexta-feira, 6 de março de 2015

Falta de mim






de tudo que aprendi é partida
sinto tanta falta de mim
por onde andei?
onde deixei meu coração?
nas ilusões que criei no meu mundo paradisíaco
onde eu era um planeta no teu universo a dar-te sóis e borboletas,
manjares afrodisíacos e carícias sedosas sobre o peito.
nada culpo, não há mais cumplicidade por detrás da tua nuca,
nem carícias, nem sóis e borboletas.
sou apenas um planeta com o coração a deriva.

Marisete Zanon  - In Confissionarium Book - Livro II