segunda-feira, 23 de março de 2015

Tempo passarinho




tempo, tempo...
silencioso, ou todo alarde
tempo passarinho
voa como a águia
ou como o estorninho
pode ser um beija-flor
mesmo parado bate asas
o tempo fica para trás
e o agora tempo foi
no bater de asas do passarinho
tempo...
tempo que voa passarinho
devora passarinho
que o tempo voou...


Marisete Zanon  - In Confissionarium Book Livro II 

domingo, 15 de março de 2015

Poema tardio...




tem tempo pra tudo nessa vida
mas paixão a essa altura
não estava nos meus planos
mesmo seus olhos sendo verdes
e  seres alguém tão vistoso
e especial
                   [não perfeito
mas seria o meu número exato
não estava nos meus planos
alguém por favor,  me acorda
e acende a luz!
ou não acenda...
deixe-me continuar sonhando
com teu braço em volta de mim
e a mão segurando meu rosto
enquanto nos beijamos
beijos de línguas sedentas
tão demorados que salivam...
dentro do sonho eu sonho
acordar todas as manhãs nos teus braços
sorrir-te e servir-te um banquete
coxas, nádegas, vulva e seios
minha boca é o teu guardanapo amor
servir-te-ei orgasmos com luxúria
e entre rios e vertentes
beberemos cálices de prazer
abrirei as janelas do quarto
para que o sol nos sorria
e sua luz ilumine nosso leito
brincaremos feito crianças
trocaremos sorrisos de felicidade
e  adormeceremos outra vez
para que eu possa acordar
e descobrir que amo sozinha...


Marisete Zanon    - Todos os direitos reservados a autora

quinta-feira, 12 de março de 2015

Odeio o trivial




Sempre procurando alguém...
Nenhum estereotipo
Quero um paradoxo!
Algum pragmático.
Nada de convencionalismo.
Eu odeio! O trivial, o standard.
Alguém que me entenda,
Sem racionalismo.
Uma performance...
Uma prova que a vida é arte!
Alguém que encoste sua alma na minha
Alguém que chore...
Alguém que saiba enxergar
E me enxergar!
Alguém que me cubra...
E alguém que me encontre e descubra.
Que fale a minha língua...
E a devore!


Marisete Zanon – In Um olhar de confissões – Book I

segunda-feira, 9 de março de 2015

Prazeres e Jazz




Como naquele pequeno poema onde atravesso a rua na decisão de partir
e na calçada do outro lado já não sou mais nada. Nem eu, nem tu.
Nunca pensei que pudesse ser assim tão rápido, tão fulminante.
Você fuma um cigarro atrás do outro, perde-se na fumaça esvoaçante e esvazia a garrafa rápido demais. Teimo em permitir-me imaginar para onde viajam teus olhos azuis nesses instantes que parecem infinitos.
Teu coração dispara, mas não é por mim e sim pelo álcool que está a matar-te.
Não sei onde está a poesia nisso, mas mesmo assim eu escrevo. A poesia é meu registro de nascimento e também será o de óbito.
Ah... Essa noite que parece não acabar mais. Estou bem aqui na tua frente, mas o jazz e o álcool te absorvem.
As prostitutas são mais felizes que eu, barganham seus prazeres e ainda levam vantagens. O bordel do outro lado da rua parece elegante e aconchegante, mais que os teus braços. Lá elas se divertem e o que me sobra é um peso mórbido encharcado de álcool perdido em sua própria ignomínia.
O jazz toca no palco com sabor de despedida. Os bares já estão encerrando o expediente, bebo uma dose e levanto-me da mesa, olho por alguns segundos teus olhos azuis, penso nas prostitutas e em seus prazeres que se estendem até onde decidirem seus clientes e elas próprias.
Não vou dar-te outra chance olhos azuis. Vou-me embora, olhos azuis. Vou sim, ali para o bordel perder-me na luxúria e ser feliz com o jazz observando os meus prazeres e eu envolvida nos dele.


Marisete Zanon

sexta-feira, 6 de março de 2015

Falta de mim






de tudo que aprendi é partida
sinto tanta falta de mim
por onde andei?
onde deixei meu coração?
nas ilusões que criei no meu mundo paradisíaco
onde eu era um planeta no teu universo a dar-te sóis e borboletas,
manjares afrodisíacos e carícias sedosas sobre o peito.
nada culpo, não há mais cumplicidade por detrás da tua nuca,
nem carícias, nem sóis e borboletas.
sou apenas um planeta com o coração a deriva.

Marisete Zanon  - In Confissionarium Book - Livro II

quarta-feira, 4 de março de 2015

Calmaria



O silêncio adentrou por entre meus poros, minha carne
e afaga docemente minha alma
ele é doce, suave
e dá-me ânimo depois do último grito barulhento
e eu descanso em paz
nessa silenciosa e deliciosa paz
sem taquicardia exacerbada de ansiedades e esperas rotas.


Marisete Zanon - Todos direitos reservados a autora

terça-feira, 3 de março de 2015

Liberdade de expressão


                                                                     

Quanto tempo ainda vou me permitir estar trancada aqui?
Preciso me libertar. Não sou assim.
Meu esquema é outro. Liberdade.
Há pessoas que preferem viver na clandestinidade.
Vender suas imagens que inventaram para as pessoas leigas.
Ou ingênuas sobre o que se passa por aqui.
Uma imagem para cada um.
Eu sou transparente, eu sou uma bola de vidro.
Minha vida é escancarada, um livro aberto.
Muitos que me conhecem sabem que mergulho fundo
E voo alto, muito alto.
Invisto alto nas emoções que uma leitura possa causar,
Mas invisto pouco em amizades que não me acrescentam nada.
Não sei dizer sim para o que preciso dizer não e vice-versa.
Minha vida é resultado do que eu faço dela,
Não preciso de ninguém para dar palpites.
Sou rebelde com causas quase anárquicas
Sou revoltada com a atitude dos seres humanos mesquinhos
E não com o ser humano.
Às vezes até tento me encaixar no mundo de alguém,
mas se vejo resistência caio fora e que se foda a pessoa.
Sou dama quando preciso, mas barraqueira sou muito melhor.
Se precisar ferir alguém, não firo, aperto fundo o dedo na ferida que ela já tem
E isso basta. Garanto, elas nunca mais voltam.
A covardia, o comodismo e a omissão são cargas negativas dos preguiçosos.
Por isso falo quando preciso, ou brigo quando incitada.
Voo alto para conseguir o que quero
E mergulho fundo quando preciso resolver meus problemas.
Vou à guerra se precisar e garanto que trago muitas medalhas.
Minha liberdade de expressão ninguém tira!!!


Marisete Zanon          

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Salva de mim

                                                                   Fotografia - José Zuzza Suassuna de Oliveira


Um dia quem sabe encontro

o meu caminho, não o de volta

não quero voltar a lugar algum

preciso de sapatos que me guiem

por trilhas de passarinhos

e encontrar minhas irmãs árvores

que se comportam com sabedoria

ando buscando a minha canção

igual aquela que eu ouvia quando criança

na cortina de conchas e caramujos

preciso tentar juntar a lucidez

que se perdeu em meio as tormentas

preciso desesperadamente encontrar comigo

num dia cinza, cheio de musgos e nevoeiros

e se alguém me perguntar o que procuro

eu lhe direi:

-um bote salva-vidas.



Marisete Zanon  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Não sou um relicário




Não sou um relicário...
Nasci assim reticente

sem entender muito bem as coisas.
Sou distraída para fazer planos
e quando os faço são como eu,
inconstantes...

sou triste por natureza,
mas isso não quer dizer que sou infeliz.
Vivo as alegrias quando as quero viver.
Carrego algumas perguntas embrulhadas,
não as faço com medo da revelação.
Não sou um gênio, não sou intelectual,
não me presenteou a sorte com beleza
não sou dona de riquezas.

Coube a mim um destino épico.
O passado deixa saudades de coisas que não fiz e
o tempo passou e perdi coisas que não queria perder
por medo, ou covardia.

Minha memória é um caos.
Das boas lembranças me restaram poucas,
brinco com elas enquanto as tenho e
se adiantasse guardá-las num bauzinho
e amarrá-lo com fita de cetim eu o faria.
Pessoas sempre, ou me irritam, ou chateiam,
 poucas me atraem,
muitas até pensam que me fazem de boba,
mas bobas são elas que pensam.

Sou sensível e sensitiva
Para alguns sou frágil,
Mas sou um leão
Não tenho sorte no amor, mas amo
e isso pra mim já é o bastante.
.
Sou estranha, ensimesmada a ponto de perder-me em mim mesma,
sem paciência, quero pronto dois e ao mesmo tempo.
Escolhi a arte para morrer de fome e encantamento
e a poesia para me confortar com a dor.
Enfim, não sou um relicário.



Marisete Zanon  -  In Confissionarium Book Livro II


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Composição do corpo






Se o composto do meu corpo deteriora

e o tempo que passa me apavora

se a malha dos tecidos e músculos se esgarça

e receio perder a graça

relembro o tempo passado

de carnes firmes e tez macia...

Sinto a idade de agora

e de súbito a beleza aflora!

Da sabedoria adquirida

e daquela que ainda há de vir...

Meu corpo é o que vivo!


Marisete Zanon - In Um cordão de confissões