quarta-feira, 4 de março de 2015

Calmaria



O silêncio adentrou por entre meus poros, minha carne
e afaga docemente minha alma
ele é doce, suave
e dá-me ânimo depois do último grito barulhento
e eu descanso em paz
nessa silenciosa e deliciosa paz
sem taquicardia exacerbada de ansiedades e esperas rotas.


Marisete Zanon - Todos direitos reservados a autora

terça-feira, 3 de março de 2015

Liberdade de expressão


                                                                     

Quanto tempo ainda vou me permitir estar trancada aqui?
Preciso me libertar. Não sou assim.
Meu esquema é outro. Liberdade.
Há pessoas que preferem viver na clandestinidade.
Vender suas imagens que inventaram para as pessoas leigas.
Ou ingênuas sobre o que se passa por aqui.
Uma imagem para cada um.
Eu sou transparente, eu sou uma bola de vidro.
Minha vida é escancarada, um livro aberto.
Muitos que me conhecem sabem que mergulho fundo
E voo alto, muito alto.
Invisto alto nas emoções que uma leitura possa causar,
Mas invisto pouco em amizades que não me acrescentam nada.
Não sei dizer sim para o que preciso dizer não e vice-versa.
Minha vida é resultado do que eu faço dela,
Não preciso de ninguém para dar palpites.
Sou rebelde com causas quase anárquicas
Sou revoltada com a atitude dos seres humanos mesquinhos
E não com o ser humano.
Às vezes até tento me encaixar no mundo de alguém,
mas se vejo resistência caio fora e que se foda a pessoa.
Sou dama quando preciso, mas barraqueira sou muito melhor.
Se precisar ferir alguém, não firo, aperto fundo o dedo na ferida que ela já tem
E isso basta. Garanto, elas nunca mais voltam.
A covardia, o comodismo e a omissão são cargas negativas dos preguiçosos.
Por isso falo quando preciso, ou brigo quando incitada.
Voo alto para conseguir o que quero
E mergulho fundo quando preciso resolver meus problemas.
Vou à guerra se precisar e garanto que trago muitas medalhas.
Minha liberdade de expressão ninguém tira!!!


Marisete Zanon          

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Salva de mim

                                                                   Fotografia - José Zuzza Suassuna de Oliveira


Um dia quem sabe encontro

o meu caminho, não o de volta

não quero voltar a lugar algum

preciso de sapatos que me guiem

por trilhas de passarinhos

e encontrar minhas irmãs árvores

que se comportam com sabedoria

ando buscando a minha canção

igual aquela que eu ouvia quando criança

na cortina de conchas e caramujos

preciso tentar juntar a lucidez

que se perdeu em meio as tormentas

preciso desesperadamente encontrar comigo

num dia cinza, cheio de musgos e nevoeiros

e se alguém me perguntar o que procuro

eu lhe direi:

-um bote salva-vidas.



Marisete Zanon  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Não sou um relicário




Não sou um relicário...
Nasci assim reticente

sem entender muito bem as coisas.
Sou distraída para fazer planos
e quando os faço são como eu,
inconstantes...

sou triste por natureza,
mas isso não quer dizer que sou infeliz.
Vivo as alegrias quando as quero viver.
Carrego algumas perguntas embrulhadas,
não as faço com medo da revelação.
Não sou um gênio, não sou intelectual,
não me presenteou a sorte com beleza
não sou dona de riquezas.

Coube a mim um destino épico.
O passado deixa saudades de coisas que não fiz e
o tempo passou e perdi coisas que não queria perder
por medo, ou covardia.

Minha memória é um caos.
Das boas lembranças me restaram poucas,
brinco com elas enquanto as tenho e
se adiantasse guardá-las num bauzinho
e amarrá-lo com fita de cetim eu o faria.
Pessoas sempre, ou me irritam, ou chateiam,
 poucas me atraem,
muitas até pensam que me fazem de boba,
mas bobas são elas que pensam.

Sou sensível e sensitiva
Para alguns sou frágil,
Mas sou um leão
Não tenho sorte no amor, mas amo
e isso pra mim já é o bastante.
.
Sou estranha, ensimesmada a ponto de perder-me em mim mesma,
sem paciência, quero pronto dois e ao mesmo tempo.
Escolhi a arte para morrer de fome e encantamento
e a poesia para me confortar com a dor.
Enfim, não sou um relicário.



Marisete Zanon  -  In Confissionarium Book Livro II


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Composição do corpo






Se o composto do meu corpo deteriora

e o tempo que passa me apavora

se a malha dos tecidos e músculos se esgarça

e receio perder a graça

relembro o tempo passado

de carnes firmes e tez macia...

Sinto a idade de agora

e de súbito a beleza aflora!

Da sabedoria adquirida

e daquela que ainda há de vir...

Meu corpo é o que vivo!


Marisete Zanon - In Um cordão de confissões

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Expatriada




nada do que tinha era seu
nem mesmo os sentimentos,

estes, apanhava nas vagas de aluguel

o desejo sempre à flor das pernas

bebia seus orgasmos como quem

experimenta uma dose de cocaína

pela primeira vez

e depois dormia sobre algum

peito de avelãs.



Marisete Zanon - Todos os direitos reservados a autora

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Talvez


                                                                   


Eu não sei ao certo quem és
Não sei qual a tua altura
Ou o número dos teus sapatos
Nem por onde te levam
Não sei como vives
E do que te alimentas
Será de promessas, beijos e prazeres?
Eu não sei o que fiz dos meus sonhos
Eles eram perfeitos
Mas deixei que se dissipassem
Por essa dúvida que me atormentava
Nem sei como te chamas
Alguns dizem paixão, outros amor
Uns loucura
Talvez eu tenha me precipitado
Com o tempo
Com a razão
Deixei que a chuva levasse minhas estrelas
Para não mais poder alcançá-las
Por que, o que são as estrelas sem ti?
Quem sabe agora eu me sente sobre as nuvens
E acaricie o vento imaginando tocar tua mão?
A ilusão é tudo o que me resta
Um doce sonho que não alimentei...

Marisete Zanon 
Todos os direitos reservados a autora

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Do amor e seus vazios




Descrevi o amor em vários aspectos,
vivi o amor de várias maneiras,
experimentei o amor de muitas formas,
mas a vida, essa minha vida de clausura                       
não me mostra nada diferente,
vejo o amor como uma luz através
da neblina, cansei de amar sozinha
de servir a taça, dividir a cama,
de encher o outro e ficar vazia,
de aquecer e ficar fria.
Estou esquecendo o verbo amor,
o ato amar. Se faz presente
outras necessidades mais prementes.
Esse amor egoísta que é Eros,
que serve para amar apenas um,
não está mais cabendo em mim.
Essa busca de amar e ser amado
é como um bote sem remos contra a maré,
em mim naufraga essa possibilidade
e nem adianta as lágrimas tentarem me afogar
não vou morrer por essa necessidade.
Coube ao destino que eu amasse sozinha,
mas tudo na vida tem um fim. A tristeza,
a alegria, a paixão, a dor, a luz, a escuridão,
a raiva, a noite e o dia...
O que é o amor mesmo?



Marisete Zanon    - In Confissionarium Book - Livro II

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Como fazer poemas




Um dia desses, uma menina de doze anos me perguntou como fazia poesias. Olhei bem pro rostinho dela e fiquei pensando como iria responder a sua pergunta de uma maneira que pudesse me entender. Bem, perguntei-lhe: gosta de teatro? Ela bem ligeiro respondeu que sim e então fiz outra pergunta: gosta de música? Afirmou com a cabeça olhando-me curiosa. Fiz-lhe a terceira pergunta: gosta de dança? Prontamente balançou a cabeça que sim. Imaginei o que ela deveria estar pensando, pois só lhe havia feito perguntas e não respondi-lhe coisa alguma, mas precisei conter a minha ansiedade juntamente com a dela e falei: a poesia surge quando interpreto sentimentos ou situações dos mais variados tipos e deixo que cada um mostre o seu som específico para depois deixar que dancem um pouco na minha mente (enquanto falava, gesticulava, fazia encenações com minhas mãos a fim de fazer-me entender pela pequena que prestava atenção com os olhos e ouvidos bem atentos) e por fim ainda tem o tato, que permite saber como tocar a pele do poema; com leveza, ou com toques mais apertados. Tomei sua mão e toquei de leve com o polegar a sua palma por alguns segundos, com seus olhinhos em mim. Então é assim que você faz poemas? Toca as pessoas? Não pude evitar a lágrima que escorreu do meu olho.


Marisete Zanon  - Todos os direitos reservados à autora.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Surreal



                                                                                   

preciso respirar

um gole de mar

pular saudades contidas

em meu peito




voar ventanias

em córregos lentos


preciso limpar

a dor do meu tempo

porque meu relógio chora

ponteiros sem alento...



Marisete Zanon   - In Confissionaruim Book