quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Saltando das nuvens





Eu ainda não sei porque te carrego aqui dentro
como uma imagem surreal desenhada num papel
não há dúvidas, tu flutuas na minha mente
és uma lembrança que nunca toquei,
não pude sentir o calor, apenas imagino
e assim amarras as minhas atitudes
e fica impossível de ir a qualquer lugar
no meu pensamento que não seja teu corpo
onde voam borboletas
preciso voar no céu azul, entre as árvores
com flores perfumadas na primavera
mas prendes meu olhar dentro do teu
e faz de mim refém
porque o que há em mim é o que sei,
mas tu não sabes que sabes
e a dúvida te atormenta.
Basta atirar-te das nuvens
e sentir o prazer
de cair na liberdade de amar.
O que há em mim é o que sei,
mas estou impedida de ter
não de sentir.


Marisete Zanon    - Todos os direitos reservados a autora 

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um recorte do diário de visitas ao inferno

                                                                         Óleo s/tela - Marisete Zanon


Minha memória está um caos. Tenho confundido sonhos com realidade. Estou vivendo através de algumas listas de tarefas diárias que eu mesma faço, enquanto estou viva, para não me perder no emaranhado dos dias. Em visita ao inferno (mais uma em meio a centenas já feitas), o mesmo assunto, o mesmo ranger de dentes, o mesmo tapa de luvas, o mesmo pulo arisco do rato fugindo da ratoeira. Aqueles olhares para os quais digo, estes meus olhares, porque a mim também pertencem. Olhando para o nada, o invisível que “tangentemente” quase esbarra no real de nossas incapacidades, quase capazes de diluir o mundo em um suspiro desgraçado. Olhares perdidos, dependentes. Sempre dependentes de alguma mão que nos ofereça em alguma bandeja suja a nossa dependência.
As listas de tarefas estão espalhadas pela casa, não pela ignorância, mas pelo fato de não haver mais memória. Os esboços do que antes era pré-visualização do concreto não passam de utopias. Uma gigantesca esfera está sempre rolando em minha direção prestes a me esmagar, se as listas não estiverem próximas de mim. E o diabo disse que ainda vai piorar, mas eu não me entrego às suas pragas e maldições. Cada dia coloco um pouquinho de mim que se foi dentro de uma caixinha estampada de florzinhas rosas e vermelhas e adorno com uma peninha de anjo e aceno com o bater de asas de Mariposa Monarca. E as listas me salvam do resto.

® Marisete Zanon - Todos os direitos reservados a autora

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Definições de meios




metades não me agradam

meios termos não satisfazem

meio cheio não completa

é solidão absoluta

ou companhia concreta

ou é a vida plena

ou a morte viva e certa


Marisete Zanon  - Todos os direitos reservados a autora

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Qualquer fio de razão

                         

te perco nessas vagas do pensamento e,

torno a te encontrar como em um desses poemas

que se faz chorando, porque sentimentos são raízes

que crescem íntegros ou contaminados

o que encontro em ti são solidões esquecidas de afetos

the ends de percursos tortuosos, sem esperança

um fim de discurso com gosto de saudade

do que não foi dito ou realizado

se houve um êxtase verdadeiro, comento

é nele que me apego pra manter a chama da vida

Incinerando amarguras e desalentos.


Marisete Zanon 

domingo, 12 de outubro de 2014

Flagrantes de mim

                                                                 Fotografia - Marisete Zanon


Alguém flagrou meu momento

Eu sei que sou desatenta

Tenho andado em câmera lenta

E não tenho mais paciência

Para interpretar meu personagem

Prefiro que fique a margem

Na peça do eu sou

De direito tenho um braço

Vagueio sem compasso

Sou mesmo torta

Nem me embaraço

A hora que quiser

Bato a porta

E vou embora

Sem abraço e sem memória!!!




Marisete Zanon   - Do livro Confissionarium - Livro II


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Bala perdida



não sei por onde tenho andado

nunca senti nada dessa maneira

quero passar por dentro do túnel e encontrar luz do outro lado

tudo é complicado e sempre estive perto de balas perdidas

a estrada tem vários rumos e escolhi os mais difíceis

as almofadas são macias, mas as balas são de chumbo

e não consigo lembrar de quando deitei num campo de flores

entendi que não adianta subir no telhado se as estrelas estão no chão

e a cada instante surgem novas

não tenho conseguido encontrar forças para encontrar o rumo de volta,

mas ainda tenho muito alma por baixo da minha pele


Marisete Zanon  

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sarcófagos das mãos




Arrastava as pernas de modo lento

procurando o que vinha de dentro

em sarcófagos de almas

poluídos de incensos

nessa lentidão do tempo

onde se aglomeravam calmas

tateando ruídos no vento

encolhia-se nas mãos

nas palmas das mãos...



Marisete Zanon  - In Confissionarium Book

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pequenos pontos




costurava na própria pele

os seus dilemas

com sutis lembranças

bordadas com lantejoulas escarlates

as agulhadas dos dissabores

penetravam a cada ponto finalizado

de trechos solitários

o capricho só não era maior

porque a vida também tem bons momentos


Marisete Zanon 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quase mudo




despi meus dedos da frieza

no calor do teu corpo

e ao pensar dizer teu nome

emudeci num improviso

percorri a solidão do meu quarto

com meus olhos

e encontrei meu corpo frágil

no espelho quase mudo


Marisete zanon


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Estranheza



Hoje eu sou um absurdo.
Uma estranheza de mim mesma.
Miro num ponto.
Fixo nele meu olhar.
Olhar?
Não vejo nada ali.
Enxergo através dele.
E sinto tudo ao meu redor.
Utopias.
Vagares impossíveis.
A sorte ao canto.
Principalmente ao canto.
Num ângulo agudo.


Marisete Zanon – In Um cordão de confissões – Livro I