quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Qualquer fio de razão

                         

te perco nessas vagas do pensamento e,

torno a te encontrar como em um desses poemas

que se faz chorando, porque sentimentos são raízes

que crescem íntegros ou contaminados

o que encontro em ti são solidões esquecidas de afetos

the ends de percursos tortuosos, sem esperança

um fim de discurso com gosto de saudade

do que não foi dito ou realizado

se houve um êxtase verdadeiro, comento

é nele que me apego pra manter a chama da vida

Incinerando amarguras e desalentos.


Marisete Zanon 

domingo, 12 de outubro de 2014

Flagrantes de mim

                                                                 Fotografia - Marisete Zanon


Alguém flagrou meu momento

Eu sei que sou desatenta

Tenho andado em câmera lenta

E não tenho mais paciência

Para interpretar meu personagem

Prefiro que fique a margem

Na peça do eu sou

De direito tenho um braço

Vagueio sem compasso

Sou mesmo torta

Nem me embaraço

A hora que quiser

Bato a porta

E vou embora

Sem abraço e sem memória!!!




Marisete Zanon   - Do livro Confissionarium - Livro II


quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Bala perdida



não sei por onde tenho andado

nunca senti nada dessa maneira

quero passar por dentro do túnel e encontrar luz do outro lado

tudo é complicado e sempre estive perto de balas perdidas

a estrada tem vários rumos e escolhi os mais difíceis

as almofadas são macias, mas as balas são de chumbo

e não consigo lembrar de quando deitei num campo de flores

entendi que não adianta subir no telhado se as estrelas estão no chão

e a cada instante surgem novas

não tenho conseguido encontrar forças para encontrar o rumo de volta,

mas ainda tenho muito alma por baixo da minha pele


Marisete Zanon  

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sarcófagos das mãos




Arrastava as pernas de modo lento

procurando o que vinha de dentro

em sarcófagos de almas

poluídos de incensos

nessa lentidão do tempo

onde se aglomeravam calmas

tateando ruídos no vento

encolhia-se nas mãos

nas palmas das mãos...



Marisete Zanon  - In Confissionarium Book

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pequenos pontos




costurava na própria pele

os seus dilemas

com sutis lembranças

bordadas com lantejoulas escarlates

as agulhadas dos dissabores

penetravam a cada ponto finalizado

de trechos solitários

o capricho só não era maior

porque a vida também tem bons momentos


Marisete Zanon 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quase mudo




despi meus dedos da frieza

no calor do teu corpo

e ao pensar dizer teu nome

emudeci num improviso

percorri a solidão do meu quarto

com meus olhos

e encontrei meu corpo frágil

no espelho quase mudo


Marisete zanon


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Estranheza



Hoje eu sou um absurdo.
Uma estranheza de mim mesma.
Miro num ponto.
Fixo nele meu olhar.
Olhar?
Não vejo nada ali.
Enxergo através dele.
E sinto tudo ao meu redor.
Utopias.
Vagares impossíveis.
A sorte ao canto.
Principalmente ao canto.
Num ângulo agudo.


Marisete Zanon – In Um cordão de confissões – Livro I

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Luz e sombra

                                                                         Fotografia - Lucile Justus



como a funda que lança a pedra
meus pés atravessam farpas
 num deserto de amor vertiginoso
onde não conheço o chão
demônios esperam a minha decisão
no inverno precocemente instalado
eles sabem que luz demais cega
e vivo na sombra de um cacto
sou memórias
um quanto de experiências
vis e ilustres
mas ninguém sobrevive
na indecisão, na aflição,
no entremeio da dúvida...

Marisete Zanon    





segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Por que das coisas

                                                     Fotografia - Marisete Zanon


Porque as coisas ao meu redor falam comigo e eu não as entendo,
vou num sobrevoo de asas angustiantes com esse fogo a arder na garganta
a perpetuar nas horas e distâncias.
Todos os dias morre em mim um pouco de tudo...
lembranças apagadas de afetos
e tenho como tem o destino a certeza que
sempre o não entender, o inconformismo de tudo que não se revela a olhos nus
nem candeias, nem velas, nada as revela e nada revela-se a mim.
Invado com múltiplas teorias meu interior achando menos de mim
concluindo que essa busca intensa e tensa
só me leva a um caminho que não pertence a mim entender
são perguntas inúteis com respostas a serem vividas
na expectativa de que tudo é um vão imenso a atrair-me
numa busca desenfreada pelo eu que tudo inquiri.

Marisete Zanon - In Confissionarium Book - Livro II

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Tempo passarinho

                                                             

Tempo, tempo...
silencioso, ou todo alarde
tempo passarinho
voa como a águia
ou como estorninho
pode ser um beija-flor
mesmo parado bate asas
o tempo fica para trás
e o agora tempo foi
no bater de asas do passarinho
tempo...
tempo que voa passarinho
devora passarinho
que o tempo voou


Marisete Zanon