quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Bala perdida



não sei por onde tenho andado

nunca senti nada dessa maneira

quero passar por dentro do túnel e encontrar luz do outro lado

tudo é complicado e sempre estive perto de balas perdidas

a estrada tem vários rumos e escolhi os mais difíceis

as almofadas são macias, mas as balas são de chumbo

e não consigo lembrar de quando deitei num campo de flores

entendi que não adianta subir no telhado se as estrelas estão no chão

e a cada instante surgem novas

não tenho conseguido encontrar forças para encontrar o rumo de volta,

mas ainda tenho muito alma por baixo da minha pele


Marisete Zanon  

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sarcófagos das mãos




Arrastava as pernas de modo lento

procurando o que vinha de dentro

em sarcófagos de almas

poluídos de incensos

nessa lentidão do tempo

onde se aglomeravam calmas

tateando ruídos no vento

encolhia-se nas mãos

nas palmas das mãos...



Marisete Zanon  - In Confissionarium Book

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pequenos pontos




costurava na própria pele

os seus dilemas

com sutis lembranças

bordadas com lantejoulas escarlates

as agulhadas dos dissabores

penetravam a cada ponto finalizado

de trechos solitários

o capricho só não era maior

porque a vida também tem bons momentos


Marisete Zanon 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quase mudo




despi meus dedos da frieza

no calor do teu corpo

e ao pensar dizer teu nome

emudeci num improviso

percorri a solidão do meu quarto

com meus olhos

e encontrei meu corpo frágil

no espelho quase mudo


Marisete zanon


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Estranheza



Hoje eu sou um absurdo.
Uma estranheza de mim mesma.
Miro num ponto.
Fixo nele meu olhar.
Olhar?
Não vejo nada ali.
Enxergo através dele.
E sinto tudo ao meu redor.
Utopias.
Vagares impossíveis.
A sorte ao canto.
Principalmente ao canto.
Num ângulo agudo.


Marisete Zanon – In Um cordão de confissões – Livro I

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Luz e sombra

                                                                         Fotografia - Lucile Justus



como a funda que lança a pedra
meus pés atravessam farpas
 num deserto de amor vertiginoso
onde não conheço o chão
demônios esperam a minha decisão
no inverno precocemente instalado
eles sabem que luz demais cega
e vivo na sombra de um cacto
sou memórias
um quanto de experiências
vis e ilustres
mas ninguém sobrevive
na indecisão, na aflição,
no entremeio da dúvida...

Marisete Zanon    





segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Por que das coisas

                                                     Fotografia - Marisete Zanon


Porque as coisas ao meu redor falam comigo e eu não as entendo,
vou num sobrevoo de asas angustiantes com esse fogo a arder na garganta
a perpetuar nas horas e distâncias.
Todos os dias morre em mim um pouco de tudo...
lembranças apagadas de afetos
e tenho como tem o destino a certeza que
sempre o não entender, o inconformismo de tudo que não se revela a olhos nus
nem candeias, nem velas, nada as revela e nada revela-se a mim.
Invado com múltiplas teorias meu interior achando menos de mim
concluindo que essa busca intensa e tensa
só me leva a um caminho que não pertence a mim entender
são perguntas inúteis com respostas a serem vividas
na expectativa de que tudo é um vão imenso a atrair-me
numa busca desenfreada pelo eu que tudo inquiri.

Marisete Zanon - In Confissionarium Book - Livro II

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Tempo passarinho

                                                             

Tempo, tempo...
silencioso, ou todo alarde
tempo passarinho
voa como a águia
ou como estorninho
pode ser um beija-flor
mesmo parado bate asas
o tempo fica para trás
e o agora tempo foi
no bater de asas do passarinho
tempo...
tempo que voa passarinho
devora passarinho
que o tempo voou


Marisete Zanon   

sábado, 26 de julho de 2014

A inerência do ódio



vai aqui uma diz-vantagem
penando, sofrida de todos os males generalizados
vejo a tua beleza, coragem perfeita
tuas flores que perfumam até ao paraíso
tua capacidade de amar permanentemente,
encanta aos mais cínicos e indecisos
enquanto decora com laços
todos os teus bons atos
e considera cor-de-rosa o mundo em que vive
eu...eu sinto ódio. esse veneno que não só mata,
mas ensina didaticamente a enxergar
um mundo real,
não me envergonho dessa minha mesquinhez
lúcida e renegada hipocritamente,
de perceber que o ódio desperta as emoções
mais reprimidas,  
se não odeio, não amo
se não odeio, não sinto paz
se não odeio, não tenho alegria
se não odeio, não perdoo
nasci impura, e na jornada idílica
deixei minha pele de sonhos, hipocrisia
e no crepúsculo do meu olhar
aprendi a conviver com o negro dos sentimentos
e a apreciar as flores do outono...

Marisete Zanon    

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Amor pra quem sabe o que é amor


                                                                    imagem do Google


meu amor chegou na hora certa
o amor verdadeiro
não o amor de luxúrias
amor de tempo
amor de amadurecimento
sempre amei mal
não entendia o amor
e ele estava bem ali
ao meu redor...
deixei o tempo passar
sem perceber
mas mesmo assim
ele veio na hora certa
de sentarmos na varanda
de mãos dadas
olhando as árvores ao redor
e nelas os pássaros migratórios
o céu cinza de inverno
e inverno também é a estação
que vivemos, eu e ele
com ares de primavera
e sorrisos amorosos em nossos rostos
De dentro da casa
vem o cheiro de madeira velha curtida
perfumado com o cheiro das frutas
o amor...antes tarde do que nunca...
nas cadeiras de balanço que rangem
e nos acolhe, recolhe e embala
rangem como nossos ossos desgastados
mas a alegria nos renova
até a hora em que Nosso Pai nos chamar
e ficar na varanda uma cadeira solitária.


Marisete Zanon - In Confissionarium Book