quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Sarcófagos das mãos




Arrastava as pernas de modo lento

procurando o que vinha de dentro

em sarcófagos de almas

poluídos de incensos

nessa lentidão do tempo

onde se aglomeravam calmas

tateando ruídos no vento

encolhia-se nas mãos

nas palmas das mãos...



Marisete Zanon  - In Confissionarium Book

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Pequenos pontos




costurava na própria pele

os seus dilemas

com sutis lembranças

bordadas com lantejoulas escarlates

as agulhadas dos dissabores

penetravam a cada ponto finalizado

de trechos solitários

o capricho só não era maior

porque a vida também tem bons momentos


Marisete Zanon 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Quase mudo




despi meus dedos da frieza

no calor do teu corpo

e ao pensar dizer teu nome

emudeci num improviso

percorri a solidão do meu quarto

com meus olhos

e encontrei meu corpo frágil

no espelho quase mudo


Marisete zanon


sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Estranheza



Hoje eu sou um absurdo.
Uma estranheza de mim mesma.
Miro num ponto.
Fixo nele meu olhar.
Olhar?
Não vejo nada ali.
Enxergo através dele.
E sinto tudo ao meu redor.
Utopias.
Vagares impossíveis.
A sorte ao canto.
Principalmente ao canto.
Num ângulo agudo.


Marisete Zanon – In Um cordão de confissões – Livro I

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Luz e sombra

                                                                         Fotografia - Lucile Justus



como a funda que lança a pedra
meus pés atravessam farpas
 num deserto de amor vertiginoso
onde não conheço o chão
demônios esperam a minha decisão
no inverno precocemente instalado
eles sabem que luz demais cega
e vivo na sombra de um cacto
sou memórias
um quanto de experiências
vis e ilustres
mas ninguém sobrevive
na indecisão, na aflição,
no entremeio da dúvida...

Marisete Zanon    





segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Por que das coisas

                                                     Fotografia - Marisete Zanon


Porque as coisas ao meu redor falam comigo e eu não as entendo,
vou num sobrevoo de asas angustiantes com esse fogo a arder na garganta
a perpetuar nas horas e distâncias.
Todos os dias morre em mim um pouco de tudo...
lembranças apagadas de afetos
e tenho como tem o destino a certeza que
sempre o não entender, o inconformismo de tudo que não se revela a olhos nus
nem candeias, nem velas, nada as revela e nada revela-se a mim.
Invado com múltiplas teorias meu interior achando menos de mim
concluindo que essa busca intensa e tensa
só me leva a um caminho que não pertence a mim entender
são perguntas inúteis com respostas a serem vividas
na expectativa de que tudo é um vão imenso a atrair-me
numa busca desenfreada pelo eu que tudo inquiri.

Marisete Zanon - In Confissionarium Book - Livro II

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Tempo passarinho

                                                             

Tempo, tempo...
silencioso, ou todo alarde
tempo passarinho
voa como a águia
ou como estorninho
pode ser um beija-flor
mesmo parado bate asas
o tempo fica para trás
e o agora tempo foi
no bater de asas do passarinho
tempo...
tempo que voa passarinho
devora passarinho
que o tempo voou


Marisete Zanon   

sábado, 26 de julho de 2014

A inerência do ódio



vai aqui uma diz-vantagem
penando, sofrida de todos os males generalizados
vejo a tua beleza, coragem perfeita
tuas flores que perfumam até ao paraíso
tua capacidade de amar permanentemente,
encanta aos mais cínicos e indecisos
enquanto decora com laços
todos os teus bons atos
e considera cor-de-rosa o mundo em que vive
eu...eu sinto ódio. esse veneno que não só mata,
mas ensina didaticamente a enxergar
um mundo real,
não me envergonho dessa minha mesquinhez
lúcida e renegada hipocritamente,
de perceber que o ódio desperta as emoções
mais reprimidas,  
se não odeio, não amo
se não odeio, não sinto paz
se não odeio, não tenho alegria
se não odeio, não perdoo
nasci impura, e na jornada idílica
deixei minha pele de sonhos, hipocrisia
e no crepúsculo do meu olhar
aprendi a conviver com o negro dos sentimentos
e a apreciar as flores do outono...

Marisete Zanon    

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Amor pra quem sabe o que é amor


                                                                    imagem do Google


meu amor chegou na hora certa
o amor verdadeiro
não o amor de luxúrias
amor de tempo
amor de amadurecimento
sempre amei mal
não entendia o amor
e ele estava bem ali
ao meu redor...
deixei o tempo passar
sem perceber
mas mesmo assim
ele veio na hora certa
de sentarmos na varanda
de mãos dadas
olhando as árvores ao redor
e nelas os pássaros migratórios
o céu cinza de inverno
e inverno também é a estação
que vivemos, eu e ele
com ares de primavera
e sorrisos amorosos em nossos rostos
De dentro da casa
vem o cheiro de madeira velha curtida
perfumado com o cheiro das frutas
o amor...antes tarde do que nunca...
nas cadeiras de balanço que rangem
e nos acolhe, recolhe e embala
rangem como nossos ossos desgastados
mas a alegria nos renova
até a hora em que Nosso Pai nos chamar
e ficar na varanda uma cadeira solitária.


Marisete Zanon - In Confissionarium Book

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Um inefável poema

                                                                              imagem do Google


Rompi todas as linhas tênues

vesti aquele meu vestido branco

ultrapassei os limites da lua cheia.

Quero provar do miolo da maçã

que rege a minha inefável sina

enquanto as múmias desfilam hipocrisia.

despido de quem me despia...

Me adornar com anéis de saturno,

rubis, esmeraldas e safiras.

Dançar em Marte e cavalgar

na Via Láctea.

E finalmente acordar no colo

Despido de quem me queria.


                                                             Marisete Zanon   - In Confissionarium Book