quinta-feira, 31 de julho de 2014

Tempo passarinho

                                                             

Tempo, tempo...
silencioso, ou todo alarde
tempo passarinho
voa como a águia
ou como estorninho
pode ser um beija-flor
mesmo parado bate asas
o tempo fica para trás
e o agora tempo foi
no bater de asas do passarinho
tempo...
tempo que voa passarinho
devora passarinho
que o tempo voou


Marisete Zanon   

sábado, 26 de julho de 2014

A inerência do ódio



vai aqui uma diz-vantagem
penando, sofrida de todos os males generalizados
vejo a tua beleza, coragem perfeita
tuas flores que perfumam até ao paraíso
tua capacidade de amar permanentemente,
encanta aos mais cínicos e indecisos
enquanto decora com laços
todos os teus bons atos
e considera cor-de-rosa o mundo em que vive
eu...eu sinto ódio. esse veneno que não só mata,
mas ensina didaticamente a enxergar
um mundo real,
não me envergonho dessa minha mesquinhez
lúcida e renegada hipocritamente,
de perceber que o ódio desperta as emoções
mais reprimidas,  
se não odeio, não amo
se não odeio, não sinto paz
se não odeio, não tenho alegria
se não odeio, não perdoo
nasci impura, e na jornada idílica
deixei minha pele de sonhos, hipocrisia
e no crepúsculo do meu olhar
aprendi a conviver com o negro dos sentimentos
e a apreciar as flores do outono...

Marisete Zanon    

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Amor pra quem sabe o que é amor


                                                                    imagem do Google


meu amor chegou na hora certa
o amor verdadeiro
não o amor de luxúrias
amor de tempo
amor de amadurecimento
sempre amei mal
não entendia o amor
e ele estava bem ali
ao meu redor...
deixei o tempo passar
sem perceber
mas mesmo assim
ele veio na hora certa
de sentarmos na varanda
de mãos dadas
olhando as árvores ao redor
e nelas os pássaros migratórios
o céu cinza de inverno
e inverno também é a estação
que vivemos, eu e ele
com ares de primavera
e sorrisos amorosos em nossos rostos
De dentro da casa
vem o cheiro de madeira velha curtida
perfumado com o cheiro das frutas
o amor...antes tarde do que nunca...
nas cadeiras de balanço que rangem
e nos acolhe, recolhe e embala
rangem como nossos ossos desgastados
mas a alegria nos renova
até a hora em que Nosso Pai nos chamar
e ficar na varanda uma cadeira solitária.


Marisete Zanon - In Confissionarium Book

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Um inefável poema

                                                                              imagem do Google


Rompi todas as linhas tênues

vesti aquele meu vestido branco

ultrapassei os limites da lua cheia.

Quero provar do miolo da maçã

que rege a minha inefável sina

enquanto as múmias desfilam hipocrisia.

despido de quem me despia...

Me adornar com anéis de saturno,

rubis, esmeraldas e safiras.

Dançar em Marte e cavalgar

na Via Láctea.

E finalmente acordar no colo

Despido de quem me queria.


                                                             Marisete Zanon   - In Confissionarium Book

sábado, 12 de julho de 2014

Desestruturação

                                                                              imagem do Google


não procure me entender

porque sou meio cinzas e folhas secas

uma picada abandonada no meio da mata

minha alma de limo resvala

pelas veredas insanas da sintaxe

e se perde sem paz


não procure me entender

porque às vezes meus pés

ficam perdidos nos armários

e os sentimentos como sempre

nebulosos e confusos

escorrem pelo ralo da pia

não tenho poder no falar

sou verborrágica

e fibro miálgica

e meu corpo vai por aí

procurando mais

partes de reticências ilógicas



Marisete Zanon   - In Confissionarium Book - Livro II 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Vislumbres da solidão

                                              Fotografia Marisete Zanon


sucumbo perante  a verdade da solidão
um solavanco estaciona em mim...
a verdade mostra que às vezes a felicidade
é ilusão disfarçada de anjo
já não quebro mais
os afetos, os sentimentos mais íngremes
acostumaram-se ao aço polido
os ventos levam as folhas
passam deixando ruídos
reminiscências de algumas épocas
encolho
resisto...
embruteço
renasço nas cores das flores
ou num abstrato
onde o pincel deixa a tinta
deliro...
regozijo
celebro El Greco
a Espanha  no meu sangue...
uma calçada úmida
em algum lugar ...
sigo com cuidado
na solidão dos meus passos
pra não escorregar na multidão

Marisete Zanon - In Confissionarium Book Livro II 

sábado, 28 de junho de 2014

Inversão de papéis

                                                Atriz Regina Braga Peça que aborda a vida da poetisa americana
                                                 Elisabeth Bishop.



fui obrigada a subir nesse palco
que não condiz nada comigo
tentei interpretar o script, mas...
diziam-me não chore!
a garganta embargava
e a voz que saía era de rebeldia
não sou daqui!
quero sumir agora, ir embora
ah...! decepções, tristezas...
sejam sinceros, eu grito
quero as cartas na mesa
por que vim parar aqui?
se o que sou me basta
trapos de meus eus desnorteados
amontoados na minha solidão
só preciso de mim e da minha vida
dedixem-me em paz!
a vida já é sacana
preciso viver 
sem mais nada que confunda
a minha louca e certa existência


Marisete Zanon  

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Despedida




na calçada um beijo

no meio da rua

um aceno

do outro lado da rua

não sou mais nada...


Marisete Zanon

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Dúvidas

                                                                                wrap-bigbad-red


A vontade do prazer é uma espada

cravada na ansiedade que o meu peito carrega

e um anjo desce dos céus

erguendo-me a cada vez que morro.

A cada vez que renasço

acendo um cigarro que queima

pouco a pouco a esperança.

Quando o absoluto torna-se vulnerável

os demônios do desejo

enlouquecem as dúvidas.

O certo e o errado.

O bem e o mal.

O côncavo e o convexo.

O querer e o não querer.

Nesses assombrosos itinerários da incerteza

não tem anjo e nem demônio

que me entenda.


Marisete Zanon   - In Confissionarium Book - Livro II

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cara a tapa

                                                                           Fotografia do Google


Que culpa tenho por amar demais?
Sou libertina, promíscua?
Mostro as minhas ligas
e dou a minha língua
a quem desejar
basta apenas me entender
mas se pensas que me entender é fácil
então não sou assim promíscua
podia ser uma boa bisca
entretanto para amar
tem que saber se rasgar
umedecer a calcinha
dar a cara a tapa
e abrir as pernas com classe
mas com classe de puta de carteirinha
tem que gozar e fazer gozar
tem que rezar e deixar sangrar,
acreditar e confessar todos os medos
todos pesadelos sem se importar
e depois de tudo isso
erguer em riste o dedo
ainda saber dizer
eu te amo.


Marisete Zanon - In Confissionarium Book - Livro II