sábado, 12 de julho de 2014

Desestruturação

                                                                              imagem do Google


não procure me entender

porque sou meio cinzas e folhas secas

uma picada abandonada no meio da mata

minha alma de limo resvala

pelas veredas insanas da sintaxe

e se perde sem paz


não procure me entender

porque às vezes meus pés

ficam perdidos nos armários

e os sentimentos como sempre

nebulosos e confusos

escorrem pelo ralo da pia

não tenho poder no falar

sou verborrágica

e fibro miálgica

e meu corpo vai por aí

procurando mais

partes de reticências ilógicas



Marisete Zanon   - In Confissionarium Book - Livro II 

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Vislumbres da solidão

                                              Fotografia Marisete Zanon


sucumbo perante  a verdade da solidão
um solavanco estaciona em mim...
a verdade mostra que às vezes a felicidade
é ilusão disfarçada de anjo
já não quebro mais
os afetos, os sentimentos mais íngremes
acostumaram-se ao aço polido
os ventos levam as folhas
passam deixando ruídos
reminiscências de algumas épocas
encolho
resisto...
embruteço
renasço nas cores das flores
ou num abstrato
onde o pincel deixa a tinta
deliro...
regozijo
celebro El Greco
a Espanha  no meu sangue...
uma calçada úmida
em algum lugar ...
sigo com cuidado
na solidão dos meus passos
pra não escorregar na multidão

Marisete Zanon - In Confissionarium Book Livro II 

sábado, 28 de junho de 2014

Inversão de papéis

                                                Atriz Regina Braga Peça que aborda a vida da poetisa americana
                                                 Elisabeth Bishop.



fui obrigada a subir nesse palco
que não condiz nada comigo
tentei interpretar o script, mas...
diziam-me não chore!
a garganta embargava
e a voz que saía era de rebeldia
não sou daqui!
quero sumir agora, ir embora
ah...! decepções, tristezas...
sejam sinceros, eu grito
quero as cartas na mesa
por que vim parar aqui?
se o que sou me basta
trapos de meus eus desnorteados
amontoados na minha solidão
só preciso de mim e da minha vida
dedixem-me em paz!
a vida já é sacana
preciso viver 
sem mais nada que confunda
a minha louca e certa existência


Marisete Zanon  

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Despedida




na calçada um beijo

no meio da rua

um aceno

do outro lado da rua

não sou mais nada...


Marisete Zanon

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Dúvidas

                                                                                wrap-bigbad-red


A vontade do prazer é uma espada

cravada na ansiedade que o meu peito carrega

e um anjo desce dos céus

erguendo-me a cada vez que morro.

A cada vez que renasço

acendo um cigarro que queima

pouco a pouco a esperança.

Quando o absoluto torna-se vulnerável

os demônios do desejo

enlouquecem as dúvidas.

O certo e o errado.

O bem e o mal.

O côncavo e o convexo.

O querer e o não querer.

Nesses assombrosos itinerários da incerteza

não tem anjo e nem demônio

que me entenda.


Marisete Zanon   - In Confissionarium Book - Livro II

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Cara a tapa

                                                                           Fotografia do Google


Que culpa tenho por amar demais?
Sou libertina, promíscua?
Mostro as minhas ligas
e dou a minha língua
a quem desejar
basta apenas me entender
mas se pensas que me entender é fácil
então não sou assim promíscua
podia ser uma boa bisca
entretanto para amar
tem que saber se rasgar
umedecer a calcinha
dar a cara a tapa
e abrir as pernas com classe
mas com classe de puta de carteirinha
tem que gozar e fazer gozar
tem que rezar e deixar sangrar,
acreditar e confessar todos os medos
todos pesadelos sem se importar
e depois de tudo isso
erguer em riste o dedo
ainda saber dizer
eu te amo.


Marisete Zanon - In Confissionarium Book - Livro II 

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Passagem

                                                     


 no quarto pairava um perfume amadeirado
onde um silêncio alucinado de emoções
satisfazia a menina de caprichos fúteis e inúteis
chorou e sumiu pela porta dos sonhos
e uma mulher emergiu em sua plenitude
na despedida não chorou
amadureceu
mas e quem disse que uma mulher madura
não chora às escondidas?


Marisete Zanon    -  Todos os direitos reservados a autora

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Ritual

       fotostudiodk.blogspot.com.br



As chamas das velas pareciam acompanhar
o ritmo de Missing tocando na sala.
Enquanto as acendia, dentro de mim acendiam recordações.
Imaginei sentir o calor de um estio.
Nossos risos e gestos povoavam minhas lembranças.
O vinho tinto nas taças de cristal pintava o ambiente.
Quando a lucidez ia embora,
nossa pele era a melhor roupa que vestíamos.
Mesmo hoje, sem a tua presença, continuo o ritual.
Acendo as velas, coloco a nossa música,
abro o vinho e me sento à mesa, no mesmo lugar.
Depois me visto com a melhor roupa...



Marisete Zanon  - In Um cordão de confissões - 2008

terça-feira, 3 de junho de 2014

Estado

                                                                    imagem do Google


Hoje eu queria

poder dizer

que estou

com aquele

tal estado

de espírito

que nem o

Diabo pode,

mas na verdade

estou num estado

de precariedade

provinciana.




Marisete Zanon  - In Confissionarium Book - Livro II

domingo, 1 de junho de 2014

Feedback

                                                                                       Фото Павел Апалькин


Deixei que tudo se perdesse
na minha memória confusa
perdão, eu disse que guardaria tudo
a tua voz, tua imagem,
mas baby...pense bem
a razão às vezes me bloqueia
não me deixa ir além
além daquilo que a circunstância
permita e somos apenas
objetos da função hormonal
de corpos que se perdem
um do outro nesse consumo
de interesses de marketing
de peles, ossos e órgãos
me perdoe se agora
teu rosto não passa de uma
imagem embaçada, distorcida
e nossos movimentos sem play
e a frieza com que agimos depois
não é um blefe
é um déjà vu
eu sei que prometi lembrar,
mas a minha memória me traiu
e só me lembro do frio
esse frio que corta
e congela a alma.


Marisete Zanon    - In Confissionarium Book - LivroII