sexta-feira, 15 de março de 2013

O meu silêncio

imagem do Google



o meu silêncio é um silêncio

construído com esforço resignado

alicerce da solidão

paredes da quietude

acomodadas

plácidas

de um ínfimo suspiro


Marisete Zanon


quinta-feira, 14 de março de 2013

Abraços

                               Obra de arte - Vino Morais



quantos abraços quebrados

quantos abraços quadrados

fomos capazes de distribuir...

porque amamos errado

agora só quero abraço redondo

abraço que envolva

que preencha o vazio dos ângulos

do ângulo

do egoísmo



Marisete Zanon

No tempo do meu castanho

      Imagem do Google


Ouvi o galopar dos cavalos ao longe vindo da planície verdejante e orvalhada em minha direção. Não havia cerca que os impedissem de ir e vir quando quisessem. Eu as tinha arrancado esperando ansiosamente esse momento.
Levou muito tempo para ouvi-los outra vez e agora achegavam-se a mim devagar, arfando, com olhares meigos e cheios de cumplicidade. O meu preferido, Castanho, aproximou-se num trote delicado, de mansinho e meneava a cabeça como quem pede desculpas pela longa ausência, pedindo carinho, insinuando que eu o montasse. Acariciei o dorso, as crinas e seus grandes olhos castanhos olhavam-me com uma ternura que doía e meus olhos ficaram borrados de uma maré sem culpas. Seu pelo brilhava a luz do sol e suas ancas eram fortes e bem desenhadas. Calma, eu falava, descanse um pouco e eu o montarei e iremos conquistar terras não sonhadas e castelos de nuvens onde só nós saberemos como encontrar para nos escondermos nos tempos ruins e lá colheremos maçãs e ervas para o nosso sustento. Corri para dentro dizendo a eles que esperassem um momentinho e arrumei um cesto cheio de maçãs e cubinhos de açúcar que usava para adoçar meus chás. Distribui maçã a todos e logo estava rodeada por crinas e músculos que reluziam a luz do sol. Gritei para eles que o celeiro estava aberto e que poderiam se servir de alfafa e água o tanto que quisessem e como crianças que correm num pique nique para comer torta eles se foram e aproveitei para montar em pelo em meu Castanho. Agarrada em suas crinas galopamos sempre rodeados de borboletas amarelas e libélulas. Galopamos por algum tempo que não se conta e nem se mede e sumimos no horizonte da planície verdejante ao encontro de terras não sonhadas e castelos de nuvens e meu Castanho alçou um voo levemente íngreme subindo cada vez mais alto e logo nos misturamos ao branco das nuvens, ao azul anil do céu daquela primavera e as borboletas amarelas e as libélulas foram ficando para trás até tornarem-se invisíveis e o que se via era apenas o verde desbotado em que a planície transformava-se. Não olharíamos mais para trás, não entendíamos nada disso sobre regresso e planos...


Marisete Zanon - Todos os direitos reservados a autora

terça-feira, 12 de março de 2013

Odeio o trivial

                                    imagem do Google



Sempre procurando alguém...
Nenhum estereótipo.
Quero um paradoxo!
Algum pragmático.
Nada de convencionalismo.
Eu odeio! O trivial, o standart.
Alguém que me entenda,
sem racionalismo.
Uma performance...
Uma prova que a vida é arte!
Alguém que chore...
Alguém que saiba meter!
Alguém que saiba enxergar!
Alguém que me descubra...
Que fale a minha língua...
E a devore!


Marisete Zanon – In Um cordão de confissões

Mènage à Trois

                                       Digital Art By - BusraAkaChocoffect



depois do fim, das palavras
que ferem (será que feriu?)
não importa quem colocou o ponto final
se acabou não era pra ser.
Desabotoei a minha roupa,
larguei na estrada
e parei de chorar.
Afinal, o que é uma roupa
pra quem é um papel
e recebe palavras
e as entrega ao mundo?
A solidão, a poesia e eu
nos completamos
estamos juntas sempre
e ninguém irá nos separar.


Marisete Zanon

sábado, 9 de março de 2013

Não me decifres

                                          Fotografia - Helmut Newton




não existe uma palavra sozinha
que me defina
não há uma fotografia
que retrate o meu eu
sou vidro e como tal,
transparente e frágil
a qualquer momento me parto
e quem me junta os cacos?
não há diagnóstico
que identifique
qual a ferida que sangra
não há música pra esse corpo
que já dança com as lembranças
não há pintura
que pinte o que sentem
os meus olhos
pois sou vidro
vidro quebrado
sou pó de vidro que se espalha
quando o vento sopra

ninguém vai me decifrar
porque nem está no meu DNA



Marisete Zanon

sexta-feira, 8 de março de 2013

Buscando a felicidade

                              imagem do Google




era só mais uma dose
a que queima por dentro
que abre brechas para liberar
a felicidade
sensação de liberdade...

e o copo estilhaçado
na parede mostra
a incongruência
dessa falsa busca...

não está na superficialidade
de materiais etílicos e voláteis
nem na lâmina que mente
cortando a carne

ela se arranca de dentro
com unhas e dentes
com força e fé
como quem se agarra
ao último fiapo de esperança.


Marisete Zanon  - In Um cordão de confissões

quarta-feira, 6 de março de 2013

Somente vida

                  imagem do Google

deixo a sombra da morte

encolhida num canto

e assovio uma canção qualquer

porque nenhum mal resiste por muito tempo 

e eu cansei de mendigar sobras

Agora eu quero Vida.

Vida Viva. 




Marisete Zanon

segunda-feira, 4 de março de 2013

Amor inverso

                                 imagem do Google




O amor mata

o amor sangra

o amor entope de vaidades

o amor atrai saudades

o amor desequilibra o corpo

o amor engole os anticorpos

o amor cospe ironias

o amor tira a alegria

o amor zomba dos pobres

humilhados por não senti-lo

e de mim que não o conheço.



Marisete Zanon

sexta-feira, 1 de março de 2013

Por que das coisas

                                   Body painting by Craig tracy


Por que das coisas


Porque as coisas ao meu redor falam comigo e eu não as entendo,
vou num sobrevoo de asas angustiantes com esse fogo a arder na garganta
a perpetuar nas horas e distâncias.
Todos os dias morre em mim um pouco de tudo...
lembranças apagadas de afetos
e tenho como tem o destino a certeza que
sempre o não entender, o inconformismo de tudo que não se revela a olhos nus
nem candeias, nem velas, nada as revela e nada revela-se a mim.
Invado com múltiplas teorias meu interior achando menos de mim
concluindo que essa busca intensa e tensa
só me leva a um caminho que não pertence a mim entender
são perguntas inúteis com respostas a serem vividas
na expectativa de que tudo é um vão imenso a atrair-me
numa busca desenfreada pelo eu que tudo inquiri.


Marisete Zanon