segunda-feira, 9 de março de 2015

Prazeres e Jazz




Como naquele pequeno poema onde atravesso a rua na decisão de partir
e na calçada do outro lado já não sou mais nada. Nem eu, nem tu.
Nunca pensei que pudesse ser assim tão rápido, tão fulminante.
Você fuma um cigarro atrás do outro, perde-se na fumaça esvoaçante e esvazia a garrafa rápido demais. Teimo em permitir-me imaginar para onde viajam teus olhos azuis nesses instantes que parecem infinitos.
Teu coração dispara, mas não é por mim e sim pelo álcool que está a matar-te.
Não sei onde está a poesia nisso, mas mesmo assim eu escrevo. A poesia é meu registro de nascimento e também será o de óbito.
Ah... Essa noite que parece não acabar mais. Estou bem aqui na tua frente, mas o jazz e o álcool te absorvem.
As prostitutas são mais felizes que eu, barganham seus prazeres e ainda levam vantagens. O bordel do outro lado da rua parece elegante e aconchegante, mais que os teus braços. Lá elas se divertem e o que me sobra é um peso mórbido encharcado de álcool perdido em sua própria ignomínia.
O jazz toca no palco com sabor de despedida. Os bares já estão encerrando o expediente, bebo uma dose e levanto-me da mesa, olho por alguns segundos teus olhos azuis, penso nas prostitutas e em seus prazeres que se estendem até onde decidirem seus clientes e elas próprias.
Não vou dar-te outra chance olhos azuis. Vou-me embora, olhos azuis. Vou sim, ali para o bordel perder-me na luxúria e ser feliz com o jazz observando os meus prazeres e eu envolvida nos dele.


Marisete Zanon