terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Um recorte do diário de visitas ao inferno

                                                                         Óleo s/tela - Marisete Zanon


Minha memória está um caos. Tenho confundido sonhos com realidade. Estou vivendo através de algumas listas de tarefas diárias que eu mesma faço, enquanto estou viva, para não me perder no emaranhado dos dias. Em visita ao inferno (mais uma em meio a centenas já feitas), o mesmo assunto, o mesmo ranger de dentes, o mesmo tapa de luvas, o mesmo pulo arisco do rato fugindo da ratoeira. Aqueles olhares para os quais digo, estes meus olhares, porque a mim também pertencem. Olhando para o nada, o invisível que “tangentemente” quase esbarra no real de nossas incapacidades, quase capazes de diluir o mundo em um suspiro desgraçado. Olhares perdidos, dependentes. Sempre dependentes de alguma mão que nos ofereça em alguma bandeja suja a nossa dependência.
As listas de tarefas estão espalhadas pela casa, não pela ignorância, mas pelo fato de não haver mais memória. Os esboços do que antes era pré-visualização do concreto não passam de utopias. Uma gigantesca esfera está sempre rolando em minha direção prestes a me esmagar, se as listas não estiverem próximas de mim. E o diabo disse que ainda vai piorar, mas eu não me entrego às suas pragas e maldições. Cada dia coloco um pouquinho de mim que se foi dentro de uma caixinha estampada de florzinhas rosas e vermelhas e adorno com uma peninha de anjo e aceno com o bater de asas de Mariposa Monarca. E as listas me salvam do resto.

® Marisete Zanon - Todos os direitos reservados a autora

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