domingo, 2 de março de 2014

Sirva o outro com doçura

                                                                           Paintings - Melissa Forman



 Não é de se admirar que nos tempos de hoje as pessoas tendam a viver entre abismos umas das outras. A praticidade que temos de adquirir objetos dos nossos desejos se tornou um vício capaz de nos deixar reféns pelo resto da vida. O trabalho, a correria e as responsabilidades que exigimos de nós mesmos aumenta com a evolução e tecnologia. Está difícil de acompanhar tudo isso. Chega um momento em que temos um clique, um dispositivo que nos alerta para a situação perigosa em que chegamos. A atenção para com o outro, pega um trem em direção oposta. Um aviso em que estamos tão distantes do outro que precisamos gritar para que nos ouça. Não gritamos quando alguém está do nosso lado. Se isso acontece é porque o abismo já está instalado. As palavras ficam presas à garganta, o orgulho, a falta de humildade não nos deixa falar, tocar e não existe abismo maior que esse. Privamos o outro de nos conhecer, de somar conosco experiências de afeto, amizade. Muitas vezes teimamos em viver só, preferimos ficar nesse estado de inércia sem perceber o quanto somos egoístas. A solidão determina o ponto que chegamos a nós mesmos. Ela cava dores, frustrações e afastamentos para nunca mais ter volta. Acreditamos que esse estado é verdadeiro, que queremos mesmo é viver sozinhos. Como nos iludimos! Então conhecemos um momento de lucidez no meio da loucura, as janelas se abrem e aquele sentimento se revela, rasgando os panos do engano. A humildade emerge do lodo que estávamos e abrimos a boca para dizer aquela palavra que o outro não esperava mais. Os nossos braços se abrem e nesse momento ouvimos o som mais calmo e prazeroso que não tivemos por muito tempo. A humildade é a virtude mais doce que existe. Sirva o outro com doçura.


Marisete Zanon