terça-feira, 12 de novembro de 2013

Setembro




A primavera estava quase chegando e nas noites a brisa fria pairava confortavelmente.
Sentia a solidão dos afortunados. Tudo em volta era vazio e triste entre lágrimas e réstias de esperança.
Não sabia quanto tempo ainda teria para escrever, dedicar-se a emboscada das palavras e seus paradigmas. A vida é um sonho onde às vezes seria melhor perpetuar o sono para não ter que viver na mesmice de dias de solidões incrustadas nas paredes.
Numa avalanche surgiu algo inesperado, uma razão, ou loucura que tocaria seu coração a buscar por respostas nunca antes resolvidas, no entanto, agora ela não as entenderia mesmo.
Dez anos se passou depois que Mariana conheceu Clodoaldo, rapaz novo de cabelos avermelhados cheio de cachos, cheio de vida e versos. Um galanteador que insistia em pedir permissão para bolinar as coxas das moças. Mariana envaidecia-se, sendo ela mulher mais velha, mas o mantinha a distância, até então a avalanche de lembranças e sentimentos acontecerem nesse início de setembro.
Clodoaldo surgiu como uma aparição, uma contida agradável surpresa para Mariana que guardava na lembrança sonhos de um sobrado de piso de madeira e corrimão polidos com uma escadaria por onde Clodoaldo sempre descia cheio de graça e virilidade para encontra-la e abraçá-la em seu vestido branco cumprido de mangas longas com rendas. Ela nunca entendera o que esses sonhos poderiam significar e agora, diante dele, era uma mulher decidida, pronta para conhecer e entender o rapaz das escadas e corrimão polido que a inquietavam nos sonhos durante anos. O rapaz era agora um homem que passara por episódios rudes e experiências necessárias para conduzir a vida.


Mariana entregou-se deixando que Clodoaldo bolinasse suas coxas na primeira conversa depois de dez anos de ausências. Mariana se permitiu despir diante aquele olhar de menino inquieto, curioso e solitário, pois Mariana também conhecia solidão. Entregou-se ao menino que gostava de observar as borboletas no rio, soltar pipas com pássaros soltos no coração e cavalgar por entre morangos e cerejas. O homem viril com quem sonhara por dez longos anos reaparecia como a Fênix das cinzas. Não havia tempo a perder.
Cavalgavam de manhã pela planície, os dois, cabelos longos ao vento, trocavam beijos e carícias quando os cavalos diminuíam o trote parando para descansar. No pé da encosta corriam em direção à cachoeira e despiam-se para nadar e brincar na água cristalina e depois amarem-se como o céu prepara-se para a tempestade. Mariana entregava-se inteira, toda céu, completa ao homem dos sonhos, enquanto Clodoaldo arremessava seus trovões e raios, até que a chuva começasse a cair e molhasse a terra. Clodoaldo sabia conduzir Mariana aos seus desejos, havia uma cumplicidade, um despir de anseios escondidos por ambos que fazia com que o tempo apenas pairasse sem que os ponteiros dos relógios se movessem. Por um tempo sem espaço e medidas, permaneciam um no outro, olhos nos olhos e o céu azul, as garças, árvores e pássaros eram testemunhas de uma entrega passiva e terna, e o firmamento era tudo o que restava.


Mariana continuaria a não entender o mistério do homem que descia as escadas nos seus sonhos, mas sentia que agora era outra mulher, que mesmo nas solidões teria uma companhia; as lembranças. Sem despedidas Clodoaldo seguia seu caminho, pois setembro acabava, mas os morangos e as cerejas ainda pintavam o verde da relva orvalhada e as pipas e pássaros brincavam no céu azul, pois sempre seria setembro.

Marisete Zanon - Todos os direitos reservados a autora