sexta-feira, 5 de abril de 2013

As tr3s

                                         imagem do Google


Podia ter nascido Sofia, exótica, sensual ou Mariana de todas Marias Anas humildes, conformada e comportada. Mas nasceu Joana. Joana de João, Joana de Joana D'Arc. Joana das Dores e purgatórios. Vivia murmurando, os pés no chão e a cabeça no mundo da lua, sonhando com um mundo que não era o seu e com uma vida que também não era a sua. Dentro dela tinha sonhos de Sofia quase palpáveis de tanto que os imaginava e como não os pudesse realizar com o despudor de Sofia, vestia-se dela com sapatos, pérolas e lingeries com cuidado em satisfazer suas carências mais prementes. Mas sempre havia uma bomba que a despertasse dos prazeres carnais e isso só acontecia quando sonhava com Sofia, se os períodos lunáticos fossem Mariana nada a despertava, tudo andava nos trilhos, a refeição posta à mesa no horário certo, a casa arrumada, as flores frescas na varanda e os filhos cumprindo seus devidos compromissos. Ao sair para o trabalho após o almoço o esposo dava-lhe um dinheirinho para gastar com bobagens (era como ele chamava os acessórios de moda) e um tapinha na bunda (que ela odiava), mas enfim, era Mariana que estava ali, a humilde e submissa. Não vou remexer muito nos sonhos Sofia e Mariana, duas criaturas antagônicas, tão quase insuportavelmente diferentes. Falar de Joana é mais complexo, seu mundo real é caos, dores, calos e revoluções. Cedo ( quase mesmo antes de levantar-se) tomava seu primeiro comprimido para controlar os hormônios. Seu primeiro abismo do dia, o segundo era o café da manhã que não conseguia ingerir devido aos efeitos colaterais de vários outros comprimidos que tomava durante o dia. Joana é valente, luta com seus aparelhos domésticos e os domestica todo santo dia, pois a luta é diária, uma guerra de dinamites acontece naquela casa no decorrer do dia e Joana é bombardeada várias vezes sentindo as cápsulas corroerem seu estômago e fígado e o bombardeio continuava nas discussões com os problemas da família. Nem Joana D'Arc suportaria. Os cabelos ficam pelo chão, no ralo do banheiro e as unhas no tanque e na pia. Não, agora não podia sonhar Sofia nem Mariana. Mariana? Queria que Mariana se fodesse!
Como pensar Mariana se tudo é guerra? Joana pensava em trégua, queria banho e cama. Tudo doía, mas era teimosa e não desistia da luta e só parava quando a bandeira do outro lado fosse erguida, então ela se deixava envolver pela fumaça de um cigarro sentada em uma confortável cadeira na varanda e em seguida tomava seu banho e um pouco antes de se deitar para dormir Joana tomava mais alguns comprimidos que tinham a função de separar Sofia de Mariana e deixar que Joana vivesse no seu mundo real onde não lhe fosse permitido sonhar.

Marisete Zanon

2 comentários:

  1. Minha querida, que guerra! Acho que todas nós temos várias outras mulheres habitando num mesmo corpo, com certeza. Gostei, muito louco! Xero, visse!
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  2. um show de texto... bjuu de linda tarde

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